Sobre o Diário

Minha foto
Este é um blog cujo público alvo são meus colegas dos cursos de Direito da Puc Minas e Letras do CEFET-MG. Demais visitantes também serão bem vindos. Aqui discutirei a respeito dos temas tratados em sala de aula, bem como sobre tudo que achar relevante. Aproveitem, eu sei que eu aproveitarei.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Resenha crítica do conto "Famigerado" de Guimarães Rosa

Presente na página 56 do livro “Primeiras Estórias”, da editora Nova Fronteira, Famigerado é um conto de João Guimarães Rosa que, como é característico do autor, possui a propriedade de valer-se da linguagem como fator predominante de construção de sentido no texto. Nesta obra, o desconhecimento do significado do significante “famigerado”, gera certo desconforto para o personagem Damásio. A elaboração do conto em que quatro cavaleiros visitam um médico no interior, sendo este o narrador da história e, possivelmente o único do local que teria conhecimento suficiente sobre o assunto, para que este esclareça a dúvida acerca do conceito da palavra que atribui nome ao conto, conta com alguns aspectos importantes da linguística de Saussure para sua análise e compreensão.
            Segundo a teoria saussuriana, o conceito e a imagem acústica do signo linguístico estabelecem entre si, uma forte relação necessária para a compreensão da palavra enquanto signo. Neste sentido, o conteúdo do signo entrelaça-se ao corpo da palavra enquanto forma escrita e sonora, de modo que seja atribuída uma impressão psíquica ao leitor e ouvinte sobre o significado daquilo que se pretende compreender. Guimarães Rosa, por sua vez, partindo de uma perspectiva derridiana, desconstrói essa representação que as pessoas costumam realizar sobre a construção de sentido das palavras baseando-se numa adaptação empírica de seu significado e significante. A primeira coisa que chama atenção é a diferença entre sentido e figura: o pressuposto ilusório de um sentido existido em si mesmo, independe do referencial de imagens e visualidades que venham a se referir a ele, é a chave para o entendimento deste conto de Guimarães Rosa. Uma rede de significantes, pois, devem possuir por trás, uma significação; uma explicação, de modo que as palavras apresentem de fato o sentido que elas expressam. O significado, o sentido que existe em si mesmo, neste conto “Famigerado”, independe de qualquer rede de sentidos imagéticos. Esta associação é, portanto, ilusória. Não podemos, pois, seguindo a concepção de Derrida, atribuir sentido a algo que não transpareça esse sentido.
            Partindo para uma análise descritiva dos ambientes e personagens do conto escrito de Guimarães Rosa, é possível perceber como o jogo linguístico é de fundamental domínio para a interpretação do conto em questão. Se se faz uma leitura lenta e ritmada do conto “Famigerado”, a escolha vocabular com a presença de neologismos e oralidades, bem como a descrição de cavaleiros e de seus cavalos, leva o analista a supor uma ambientação rural, simples. Somado a isso, a narração dos personagens permite que se crie uma imagem rude dos homens que se aproximam da casa do doutor, como na seguinte passagem:

O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida” (ROSA, João Guimarães, 2001, pg. 56)

Por sua vez, a imagem que se tem do protagonista, em detrimento da escolha vocabular sofisticada que este utiliza na narração dos fatos, visto que este é narrador personagem (o conto é narrado em primeira pessoa), transmite ao leitor, a imagem de um homem estudado, culto, intelectual, menos robusto que o personagem Damásio (“com um pingo no i, ele me dissolvia”), mas conhecedor das letras e, possivelmente por medo daquelas quatro figuras que pairavam à sua porta em busca de explicações, disposto a ajudar:

“Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?” (ROSA, João Guimarães, 2001, pg. 59)

            É nessa perspectiva que se faz possível a análise do conto escrito de Guimarães Rosa, comparando-o com a interpretação para versão fílmica de Aluízio Salles Jr. Talvez, o linguajar rebuscado do protagonista tenha inspirado o diretor a, logo no início do curta-metragem, apresentar o ambiente da casa do protagonista repleto de livros e com ele próprio sentado numa cadeira e escrevendo, dando a entender que este é um intelectual, apreciador da leitura e da escrita. O personagem Damásio é mais um cujas características se aproximam bastante das narradas na obra escrita: um homem robusto, amedrontador, possivelmente oferecedor de ameaças caso contrariado. Seu tom de voz de ameaça, concorda, ainda, com a narração do protagonista quando diz “o medo me miava”.
            Afastando-se um pouco das análises concretas que relacionam a leitura de Aluízio Salles Jr. da obra escrita de Guimarães Rosa, faz-se necessário uma busca de fundamentação dos fatores que permitem que os signos linguísticos sejam transformados em imagens. No próprio livro “Primeiras Estórias”, o editor se permite adicionar o capítulo “Vastos Espaços”, para esclarecer sobre diversas questões importantes que o leitor deve ter em mente no momento da leitura de Guimarães Rosa, entre elas, a sonoridade dos textos: “suas páginas exigem leitura atenta e meditada, e, ao mesmo tempo, podem ser lidas em voz alta ou, pelo menos, com a colaboração ininterrupta da imaginação auditiva”. (RÓNAI, Paulo, 1966, pg. 34). Neste sentido, conclui-se que a tradução para imagens dos signos, são feitos de acordo com o entendimento particular que cada leitor realiza em sua mente; logo, a construção técnica dos ambientes na conversão do gênero escrito em filme, pôde ser realizada tomando como base aquilo que se imaginou no momento de leitura do texto. Essa interpretação é pessoal e a maneira como foi gravado este curta-metragem tomou como base a experiência de leitura deste diretor, em especial.
            Após este estudo, foi possível concluir que a leitura de Guimarães Rosa é custosa, especialmente pelo fato de ser este um profundo conhecedor das letras. O leitor deve, a princípio, estabelecer seu ritmo de leitura, que é algo que deve ser trabalhado e apenas a prática o levará a fazê-lo com mais precisão. Logo, o sujeito, ainda que bom leitor, poderá se escarrar em dificuldades na leitura de Guimarães Rosa, sobretudo por seu estilo literário ser bastante particular. Essa dificuldade advém de obstáculos que o leitor encontrou para compreender o significado que aquele conjunto de signos, o texto, pretendeu transmitir, são os chamados ruídos de comunicação. Alguns são os fatores que causam estas falhas comunicativas, sejam elas o estilo diverso do que o leitor está acostumado, sendo seu horizonte de expectativa todavia pequeno para compreender todas as minúcias que um texto repleto de jogos de linguagem pode transmitir; falta de interesse nos temas ou momento pessoal inadequado que o leitor se sujeita a ler uma obra que demanda certa atenção especial; e, o que sobressai nos textos de Guimarães Rosa, a linguagem própria e demasiado criativa do autor, a este respeito, o sujeito deve estar disposto romper com paradigmas estancados que compõem a linguagem, seus significados e significantes, para a construção de um sentido inesperado partindo de um conjunto de signos neolinguísticos. Ocorre, e é importante destacar, que ademais de ser este ultimo fator um motivo de ruído comunicativo, é também um elemento fundamental que sustenta Guimarães Rosa na posição de cânone da literatura brasileira. Sendo este estilo pessoal, típico de suas obras apenas, um instrumento de poder perante outras obras de autores alternativos, que possivelmente por falta de domínio técnico e inovador da linguagem, não atingiram tamanha relevância artística quanto Guimarães Rosa. Este papel social de destaque que o autor possui, torna obrigatória sua leitura para estudantes das letras e belas artes, tanto pela importância que este autor possui como modelo da literatura nacional quanto pelas enormes contribuições estilísticas e linguísticas que suas obras podem oferecer para quem se interessa.


REFERÊNCIAS

ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. 15. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 236 p.


Nenhum comentário:

Postar um comentário